LÓGICAS INSTITUCIONAIS E O RENASCIMENTO DO MERCADO DE DISCOS DE VINIL
NO BRASIL
Estudos de mercado; Dinâmicas de sistemas de mercado; Teoria institucional; Discos de vinil; Música
O presente trabalho tem como objetivo identificar e compreender as lógicas institucionais que operam no mercado brasileiro de discos de vinil desde o seu declínio, a partir da década de 1990, até o seu recente renascimento, em um contexto marcado pela digitalização da música. Ancorada no paradigma interpretativista, com ontologia intersubjetivista e epistemologia construtivista, a pesquisa adota como referencial teórico a Teoria Institucional, em articulação com a abordagem da Market System Dynamics (MSD), compreendendo os mercados como sistemas institucionais dinâmicos, constituídos por múltiplos atores, práticas, significados e estruturas que se transformam ao longo do tempo.
Metodologicamente, trata-se de um estudo qualitativo que combina análise documental e histórica do setor fonográfico, entrevistas em profundidade e etnográficas com diversos atores do mercado de discos de vinil, incluindo consumidores, lojistas, proprietários de selos, DJs, gestores de fábricas, entusiastas e historiadores. Os dados foram analisados por meio da análise temática, permitindo a identificação de padrões, práticas recorrentes e processos institucionais que sustentam a dinâmica do mercado. Os resultados evidenciam que o renascimento do mercado de discos de vinil no Brasil é sustentado por um pluralismo institucional, no qual coexistem e se articulam três lógicas institucionais centrais: a lógica da Materialidade, associada à valorização da experiência sensorial, da nostalgia e da desintoxicação digital; a lógica da Resistência, relacionada à oposição simbólica à efemeridade do consumo digital, à preservação de práticas culturais e à sobrevivência
profissional de determinados atores, como os DJs; e a lógica da Reverberação, que expressa a articulação entre os universos digital e analógico, tanto por meio da circulação simbólica do vinil nas plataformas digitais quanto pela geração de contextos culturais, sociais e identitários a partir do consumo do disco como objeto expandido. A análise demonstra que essas lógicas não apenas coexistem, mas se reconfiguram historicamente, assumindo diferentes graus de centralidade ao longo do tempo, o que contribui para a manutenção, adaptação e crescimento do mercado. Como contribuição teórica, o estudo avança na
literatura de MSD ao oferecer uma leitura processual do renascimento de mercados, enfatizando a transformação e a recombinação de lógicas institucionais, em contraste com abordagens focadas exclusivamente na criação ou na transformação de mercados. Além disso, amplia a aplicação da Teoria Institucional ao evidenciar como práticas culturais, valores simbólicos e materialidades específicas influenciam a dinâmica de sistemas de mercado. Em termos gerenciais e socioculturais, a pesquisa oferece subsídios para a compreensão das estratégias de atores envolvidos em mercados culturais e destaca o papel do vinil como artefato material que promove autenticidade, pertencimento e valorização do patrimônio musical na contemporaneidade.