Cisticercose bovina sob a perspectiva da Saúde Única: revisão sistemática e metanálise da prevalência e dos fatores de risco.
Palavras-chave: Taenia saginata; inspeção de carnes; vigilância epidemiológica; fatores de risco; zoonose; epidemiologia veterinária; Saúde Única.
A cisticercose bovina, causada pelo estágio larval de Taenia saginata, constitui uma zoonose de relevante importância sanitária, econômica e para a saúde pública. A infecção ocorre quando bovinos ingerem água ou alimentos contaminados por ovos do parasito eliminados nas fezes de indivíduos portadores de teníase. Embora, geralmente assintomática nos animais, a enfermidade é identificada principalmente durante a inspeção post mortem em abatedouros, podendo resultar na condenação parcial ou total de carcaças e ocasionar expressivas perdas econômicas para a cadeia produtiva da carne bovina. O presente estudo teve como objetivo estimar a prevalência da cisticercose bovina e analisar os principais fatores de risco associados à infecção em diferentes contextos epidemiológicos por meio de revisão sistemática e metanálise. A revisão foi conduzida conforme as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). As buscas foram realizadas nas bases PubMed, Web of Science, Scopus, LILACS e SciELO, sem restrição de idioma ou período de publicação. Foram incluídos estudos observacionais que investigaram a prevalência da cisticercose bovina e/ou fatores de risco associados à infecção. A qualidade metodológica foi avaliada por meio da Newcastle–Ottawa Scale (NOS). As metanálises foram realizadas por modelo de efeitos aleatórios (random-effects model), utilizando a linguagem R, no ambiente RStudio, por meio do pacote Metafor. Ao final do processo de seleção, 23 estudos publicados entre 2007 e 2023 foram incluídos na revisão sistemática, dos quais 19 contribuíram para as análises de prevalência e 16 estimativas de associação foram avaliadas para a síntese quantitativa dos fatores de risco. A prevalência global combinada foi de 1% (IC95%: 0–4%), com heterogeneidade extremamente elevada entre os estudos (I² = 100%). Na análise por subgrupos geográficos, a África apresentou a maior prevalência combinada (7%; IC95%: 2–20%), seguida pela América do Sul (1%; IC95%: 0–3%), enquanto a Europa apresentou prevalência próxima de zero. Entre os principais fatores associados à ocorrência da infecção destacaram-se a utilização de fontes de água não tratadas, a ausência de saneamento básico, os sistemas de produção extensivos, a maior idade dos bovinos e fatores relacionados ao manejo produtivo e à exposição ambiental. Os resultados demonstram que a ocorrência da cisticercose bovina apresenta distribuição heterogênea e é fortemente influenciada por determinantes sanitários, ambientais, produtivos e socioeconômicos. Conclui-se que estratégias sustentáveis de prevenção e controle devem priorizar melhorias no saneamento rural, proteção das fontes hídricas, fortalecimento da inspeção sanitária, ampliação da vigilância epidemiológica, rastreabilidade animal e adoção de boas práticas de manejo. Nesse contexto, a abordagem Saúde Única (One Health) constitui um componente essencial para a prevenção e o controle da enfermidade, ao demonstrar a necessidade de integrar ações voltadas à saúde humana, saúde animal e ao meio ambiente, contribuindo para reduzir a transmissão de T. saginata e seus impactos sanitários, econômicos e sociais.