Pesquisa e diagnóstico de Leishmania spp. em hospedeiros selvagens, sinantrópicos em área endêmica para leishmaniose visceral
diagnóstico molecular; PCR; animais silvestres; histopatologia.
A leishmaniose visceral é uma zoonose causada por Leishmania infantum e permanece endêmica no Brasil, onde Lutzomyia longipalpis constitui o principal vetor (Brasil, 2006). Embora os cães sejam reconhecidos como o principal reservatório doméstico, infecções já foram registradas em diversos animais silvestres e sinantrópicos, incluindo roedores, morcegos, gambás e primatas, indicando que essas espécies podem atuar como hospedeiros e participar do ciclo epidemiológico do parasito em ambientes urbanizados (Leite et al., 2008; Pérez et al., 2015). Diante dessa diversidade de hospedeiros, torna-se essencial investigar a presença do agente nesses animais para compreender sua relevância epidemiológica e subsidiar estratégias de vigilância. O objetivo deste trabalho é investigar a infecção por Leishmania spp. em animais silvestres, sinantrópicos e pets não convencionais por meio de qPCR, histopatologia e imuno-histoquímica. O projeto foi realizado na Universidade Federal de Lavras, nas dependências do Setor de Patologia Veterinária (SPV-UFLA), onde foram coletadas amostras de baço, fígado, pele da face e da região de escápula, rim, bexiga, coração, linfonodo, timo, intestino, pulmão, humor, medula óssea, sangue, estômago e encéfalo. Os tecidos destinados à histopatologia foram fixados em formol tamponado a 10% e processados rotineiramente para histopatologia. Amostras de medula óssea, baço, pele e linfonodo foram submetidas à extração de DNA para análise molecular. Durante o período avaliado (janeiro 2018– abril 2026), foram necropsiados 398 animais, sendo que a maioria teve amostras coletados para análise histopatológica com exceção daqueles em avançado estado de autólise. Dos 398 animais, 200 tiveram amostras coletadas para análises moleculares e, após a aplicação dos critérios de exclusão relacionados à ausência dos quatro tecidos selecionados 164 animais foram incluídos nas análises moleculares. Dentre as espécies coletadas, incluíram-se primatas, roedores, marsupiais e carnívoros, entre outros. Os diagnósticos de necrópsia foram predominantemente relacionados a politraumatismos, doenças infecciosas e alterações sistêmicas não associadas à leishmaniose. Não foram observadas formas amastigotas nas análises histopatológicos, achado que não exclui a ocorrência de infecções subclínicas ou de baixa carga parasitária. A análise molecular da medula óssea identificou 13 amostras positivas para Leishmania spp. sendo provenientes de 9 saguis (Callithrix sp.), 1 ouriço-cacheiro (Coendou spinosus), um 1 sauá (Callicebus personatus), 1 veado-catingueiro (Mazama gouazoubira) e 1 porquinho-da-índia (Cavia porcellus). Esses resultados demonstram a detecção molecular do parasito em diferentes grupos de hospedeiros, incluindo espécies silvestres, sinantrópicas e pets não convencionais, reforçando a importância da investigação molecular para diagnóstico de leishmaniose. As análises dos demais tecidos selecionados ainda estão em andamento. A detecção molecular de Leishmania spp. na medula óssea de diferentes espécies, mesmo na ausência de formas amastigotas observadas histologicamente, demonstra a importância da associação entre métodos moleculares e histopatológicos na investigação da leishmaniose. A análise dos demais tecidos permitirá complementar os resultados obtidos e avaliar a distribuição do parasito nos animais positivos, contribuindo para uma melhor compreensão da participação dessas espécies no ciclo epidemiológico da leishmaniose visceral.