Expansão dos casos de dengue e outras arboviroses na Região das Américas
Arboviroses; Dengue; Aedes aegypti; Oropouche; Resíduos plásticos; Saúde Única; Vigilância epidemiológica; Sustentabilidade; Governança ambiental; Inteligência artificial.
Nas últimas décadas, o continente americano tem vivenciado a expansão contínua das arboviroses, especialmente dengue, zika, chikungunya e febre do Oropouche. A combinação entre mudanças climáticas, urbanização desordenada, desigualdade social e manejo inadequado de resíduos sólidos, em particular plásticos descartáveis, tem favorecido a proliferação de vetores como Aedes aegypti, A. albopictus e Culicoides paraensis. Essa conjuntura evidencia uma crise de governança e integração entre políticas de saúde, meio ambiente e saneamento, exigindo abordagens interdisciplinares sob a ótica da Saúde Única. Ante o exposto, o presente estudo teve como objetivo geral compreender os determinantes ambientais, sociais e tecnológicos associados à expansão das arboviroses nas Américas, com ênfase na análise aplicada à microrregião de Lavras (MG). Para tal, combinou-se uma revisão integrativa de literatura e estudo de campo com abordagem mista (quantitativa e qualitativa). A revisão buscou compreender as evidências sobre resíduos plásticos e ecologia vetorial. O estudo de campo foi conduzido em nove municípios da microrregião de Lavras (MG), utilizando questionário estruturado baseado nos eixos do Plano Nacional de Contingência para Dengue, Chikungunya e Zika. Os resultados demonstraram que 100% dos municípios possuem planos de contingência, porém apenas 44,4% utilizam ovitrampas e 55,6% mantêm salas de situação. O monitoramento epidemiológico depende majoritariamente de esforço humano, com baixo uso de inteligência de dados e ferramentas preditivas. Embora 88,9% dos municípios realizem vigilância sorológica e 77,8% mantenham fluxo com o LACEN, a vigilância genômica ainda é incipiente. A análise revelou o paradoxo da “reatividade estruturada”: sistemas tecnicamente capazes, mas operacionalmente fragmentados. Além disso, verificou-se forte relação entre o descarte inadequado de resíduos plásticos e a persistência de criadouros de A. aegypti, indicando que o acúmulo desses materiais é um vetor ambiental determinante para a manutenção das arboviroses. A pesquisa reforça que o desafio brasileiro não é a falta de recursos, mas a ausência de integração entre esferas institucionais e políticas públicas, o déficit de governança regional e a subutilização de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e vigilância digital. A expansão das arboviroses nas Américas reflete uma crise intersetorial de saúde e meio ambiente.