POLUIÇÃO ALÉM DO VISÍVEL: MICROPLÁSTICOS EM SEDIMENTOS DE ECOSSISTÊMAS LÊNTICOS TROPICAIS E SEUS FATORES ECOLÓGICOS DETERMINANTES
Biodisponibilidade, Conectividade hidrológica, Contaminação difusa, Fatores antrópicos, Poluição plástica, Variáveis ambientais.
A poluição por microplásticos (MPs) constitui uma ameaça emergente à integridade de ecossistemas aquáticos, especialmente em ambientes lênticos tropicais ainda pouco estudados. Este trabalho investigou a ocorrência, distribuição e determinantes ecológicos da abundância de MPs em sedimentos e solos marginais de lagoas artificiais tropicais, localizadas na Universidade Federal de Lavras (UFLA), Minas Gerais, Brasil. Para isso, foi realizada uma etapa inicial de validação metodológica, na qual diferentes soluções de separação por densidade (H₂O, NaCl e ZnCl₂) foram testadas em sedimentos com distintas texturas. Em seguida, as amostras ambientais foram processadas por digestão química, separação por densidade, filtração e análise em microscopia óptica, com caracterização morfológica das partículas (formato, cor e tamanho). Variáveis ambientais e antrópicas (resíduos plásticos visíveis, textura do solo, uso do entorno, posição hidrológica e distância de estradas) foram incluídas em modelos estatísticos para identificar os fatores associados à abundância de MPs. O protocolo apresentou eficiência média de 87,2% na recuperação de partículas, com maiores taxas em sedimentos arenosos e melhor desempenho do ZnCl₂ entre as soluções testadas. MPs foram detectados em 100% das amostras ambientais, totalizando 9.244 partículas e abundância média de 14.006 ± 17.043 partículas·kg⁻¹. A composição foi dominada por fragmentos (73,2%), partículas pretas (81,9%) e tamanhos <500 µm (94,7%). Embora não tenha encontrado diferença significativa entre margens e fundos, observou-se alta variação espacial entre lagoas, com concentrações superiores a 30.000 partículas·kg⁻¹ em algumas unidades e inferiores a 8.000 em outras. A análise de componentes principais revelou padrões distintos na composição das partículas entre lagoas, indicando diferentes fontes e processos de deposição. Em relação à conectividade hidrológica, lagoas mais próximas das cabeceiras apresentaram abundâncias mais elevadas, enquanto aquelas mais distantes ou desconectadas exibiram valores reduzidos, evidenciando efeito de filtragem hidrológica. Os modelos estatísticos apontaram a cobertura florestal (relação positiva) e a massa de resíduos plásticos visíveis (relação negativa) como principais preditores da abundância de MPs. Os resultados confirmam que ambientes aparentemente preservados, como áreas de cabeceira com maior cobertura florestal, não estão livres da contaminação, possivelmente devido a aportes difusos, como deposição atmosférica. Por outro lado, a ausência de macroplásticos visíveis não significou baixa contaminação, sugerindo que locais visualmente “limpos” podem ocultar elevadas cargas de partículas microscópicas. A predominância de fragmentos pequenos e escuros reforça a preocupação ecológica e sanitária, dada sua alta biodisponibilidade para organismos aquáticos e potencial transferência trófica. Conclui-se que lagoas tropicais atuam como sumidouros importantes de MPs, refletindo a interação entre fatores antrópicos e ambientais. Este estudo contribui para preencher lacunas sobre a poluição por MPs em ecossistemas dulcícolas, oferecendo subsídios para monitoramento, mitigação e políticas públicas voltadas à gestão de resíduos e conservação da qualidade da água.