CONSUMO ALIMENTAR, COMPORTAMENTOS EM SAÚDE E FATORES MACROECONÔMICOS ENTRE ADOLESCENTES DE PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO
Hábitos alimentares; Sono; Atividade física; Inquéritos populacionais; Adolescentes; Países em desenvolvimento.
Introdução: A adolescência é um período crítico para a consolidação de hábitos alimentares, padrões de sono e níveis de atividade física, fatores que impactam a saúde. O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados (AUP) e a redução de alimentos in natura são determinantes da obesidade e de outras doenças crônicas não transmissíveis. Alterações do sono podem elevar o consumo de AUP e reduzir a atividade física, enquanto dietas ricas em AUP e o sedentarismo prejudicam o sono, formando um ciclo vicioso, especialmente em contextos de baixa renda e piores condições de vida. Objetivo: Avaliar a associação do consumo alimentar, distúrbios do sono e níveis de atividade física com indicadores macroeconômicos entre adolescentes de 45 países em desenvolvimento. Métodos: Estudo ecológico baseado em dados do Global School-based Student Health Survey (GSHS) e da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2015). Foram analisadas variáveis relacionadas ao consumo alimentar diário, distúrbios de sono, prática de atividades físicas e comportamento sedentário, conforme as regiões da Organização Mundial da Saúde. Os indicadores macroeconômicos analisados foram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a Renda Nacional Bruta (RNB) per capita e o Índice de Gini. Foram realizadas análises descritivas e o teste Qui-quadrado de Pearson (SPSS 22.0). Ademais, calculou-se o saldo global de marcadores de saúde pela diferença entre a soma dos comportamentos considerados saudáveis (consumo de frutas, legumes e verduras (V/L), prática de atividade física (AF), transporte ativo e frequência nas aulas de educação física) e não saudáveis (consumo de refrigerantes, fast food, insônia e comportamento sedentário) em cada região. As associações foram avaliadas por regressão linear (modelos brutos e ajustados - Stata 14.2), e as relações entre o IDH e os comportamentos de saúde dos adolescentes foram representadas por gráficos de dispersão (RStudio 4.4.1). Resultados: Foram analisados dados de 199.329 adolescentes, dos quais47,5% consumiam refrigerantes diariamente, 61,2% fast food pelo menos 1x/semana, enquanto a prática de AF permaneceu em níveis reduzidos (15,3%). Diferenças significativas entre regiões da OMS foram observadas para consumo de frutas (p=0,035), fast food (p<0,001), insônia (p=0,002), transporte ativo (p=0,008) e comportamento sedentário (p=0,001). No saldo global de marcadores de saúde, a África apresentou saldo positivo (+7,1 p.p.), enquanto o Mediterrâneo Oriental concentrou os piores resultados (–10,0 p.p.). Na regressão linear, o consumo de frutas associou-se ao de L/V (β=0,78; p<0,001) e de refrigerantes (β=0,67; p<0,001). O maior consumo de L/V relacionou-se à menor prevalência de insônia (β=–1,89; p<0,05) e à maior prática de AF (β=1,34; p<0,05). O aumento de fast food associou-se a maiores níveis de insônia (β=0,84; p<0,05), o transporte ativo esteve relacionado à redução (β=–1,22; p<0,05) e o comportamento sedentário ao aumento (β=1,44; p<0,05). Países com alto (β=–23,3; p=0,006) e muito alto IDH (β=–32,2; p=0,004) apresentaram menor consumo de frutas, enquanto o comportamento sedentário aumentou com o IDH contínuo (β=+101,83; p<0,001). Conclusão: A insônia esteve associada ao menor consumo de L/V, maior consumo de fast food, menor transporte ativo e maior sedentarismo. Esses padrões foram mais prevalentes em países com IDH mais elevado, sugerindo uma transição comportamental ligada ao desenvolvimento, marcada por maior exposição a hábitos sedentários e alimentares de risco.