ADMISSÕES E ÓBITOS POR INSUFICIÊNCIA CARDÍACA E INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO NO ESTADO DE MINAS GERAIS: ANÁLISE DE SÉRIES TEMPORAIS
internação, doenças cardiovasculares, estudos de séries temporais, fatores de risco.
As doenças cardiovasculares (DCV) permanecem como uma das principais causas de morbimortalidade no Brasil e no mundo, com destaque para o infarto agudo do miocárdio (IAM) e a insuficiência cardíaca (IC), condições intimamente relacionadas tanto aos seus mecanismos fisiopatológicos quanto aos fatores de risco. Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo realizar uma análise temporal abrangente das internações e óbitos por IAM e IC em adultos acima de 20 anos, no estado de Minas Gerais, no período de 2016 a 2022, levando em consideração diferenças entre os sexos e comorbidades relevantes. Os dados utilizados foram obtidos a partir do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH-SUS), abrangendo todas as internações hospitalares registradas no estado. Para compreender as tendências e flutuações das séries temporais, foram aplicados modelos autorregressivos e de média móvel com covariáveis (ARMAX), com inclusão de componentes sazonais e análise de possíveis intervenções relacionadas a eventos externos, como a pandemia de disease of coronavirus 19 (COVID-19). No total, foram identificadas 90.670 internações por IAM, com taxa média de letalidade de 8,5%, e 178.477 internações por IC, com letalidade de 10%. Observou-se predominância de internações por IAM em homens, enquanto as internações por IC foram mais frequentes entre mulheres, sugerindo padrões distintos de vulnerabilidade entre os sexos. Períodos de inverno apresentaram associação significativa com aumento das hospitalizações por ambas as doenças, indicando possível influência de fatores ambientais e infecciosos sazonais. Além disso, as internações por doenças respiratórias mostraram correlação positiva com o aumento do risco de eventos cardiovasculares, reforçando o papel das condições inflamatórias sistêmicas e das infecções respiratórias agudas como desencadeantes de descompensações cardíacas. Durante a pandemia de COVID-19, verificou-se expressiva redução nas hospitalizações por DCV, possivelmente relacionada às restrições de mobilidade, ao receio da população em buscar atendimento hospitalar e à reorganização dos serviços de saúde. Contudo, em setembro de 2020, observou-se significativo aumento nas mortes masculinas por IAM, sugerindo impacto tardio da pandemia sobre a mortalidade cardiovascular. Outro achado relevante foi a relação inversa entre hospitalizações por AIDS e mortes por IC em mulheres, fenômeno que pode refletir diferenças no acompanhamento clínico e no uso de terapias antirretrovirais com efeito cardioprotetor indireto. As análises de tendência indicaram comportamento divergente entre as duas doenças: enquanto as internações por IC manifestaram tendência à queda ao longo do período estudado, as internações por IAM mostraram tendência ao aumento, refletindo possíveis mudanças no perfil epidemiológico e na efetividade das estratégias de prevenção primária e secundária. Em síntese, o estudo evidenciou que fatores sazonais e infecciosos exercem influência significativa sobre o comportamento das doenças cardiovasculares e que o impacto da pandemia introduziu alterações transitórias nas curvas de hospitalização e mortalidade. Tais achados reforçam a importância da vigilância epidemiológica contínua e do fortalecimento das políticas públicas voltadas à prevenção, ao diagnóstico precoce e manejo adequado das DCVs, com atenção especial às diferenças de gênero e às comorbidades associadas.