Rastreamento e identificação de bactérias com potencial resistência a antibióticos em esgoto de um campus universitário em Lavras, Minas Gerais
resistência antimicrobiana; esgoto; vigilância ambiental; ESBL; carbapenemases; MALDI-TOF MS.
A resistência antimicrobiana (AMR) constitui uma importante ameaça à saúde pública, e o esgoto representa uma matriz relevante para o monitoramento de bactérias com potencial resistência a antibióticos. Este estudo investigou a ocorrência dessas bactérias em esgoto proveniente de um campus universitário em Lavras, Minas Gerais, com ênfase na recuperação de microrganismos sob condições seletivas para fenótipos associados à produção de ESBL e carbapenemases. Amostras foram coletadas semanalmente, durante três meses, em duas estações elevatórias (PS1 e PS2), que recebem contribuições de diferentes setores do campus, e no efluente tratado (TE) da estação de tratamento de esgoto. As bactérias cultiváveis foram quantificadas em meios cromogênicos ESBL e KPC, preparados com e sem os respectivos suplementos seletivos, e 19 isolados foram submetidos à identificação taxonômica por MALDI-TOF MS. Também foram determinados pH, sólidos totais voláteis (TVS) e demanda química de oxigênio (COD). As maiores contagens bacterianas foram observadas nas estações elevatórias, enquanto o efluente tratado apresentou contagens inferiores, com diferenças de 1,85 a 2,52 log₁₀ UFC mL⁻¹ em relação às estações elevatórias. A adição dos suplementos seletivos reduziu significativamente a recuperação bacteriana, embora bactérias cultiváveis permanecessem detectáveis no efluente tratado sob as condições avaliadas. Os perfis de contagem diferiram significativamente entre os locais de amostragem (PERMANOVA, R² = 0,786; p = 0,001), com clara diferenciação entre as estações elevatórias e o efluente tratado, acompanhada por diferenças nas características físico-químicas do esgoto. Entre os isolados analisados por MALDI-TOF MS, foram identificados táxons de relevância clínica, incluindo Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae e membros do complexo Enterobacter cloacae. O crescimento nos meios seletivos foi interpretado como indicativo de resistência presuntiva, uma vez que não foram realizados testes fenotípicos de suscetibilidade ou confirmação molecular dos mecanismos de resistência. Os resultados demonstram menores cargas de bactérias cultiváveis no efluente tratado, mas também a permanência de microrganismos capazes de crescer sob condições seletivas após o tratamento. Esses achados reforçam o potencial do monitoramento microbiológico do esgoto como ferramenta de triagem para a vigilância ambiental da resistência antimicrobiana.