Interdisciplinaridade no Currículo Referência de Minas Gerais para as Ciências da Natureza no contexto da Base Nacional Comum Curricular e do Novo Ensino Médio (2017)
Currículo. Ciências da Natureza. Novo Ensino Médio. Itinerários Formativos. Interdisciplinaridade.
Desde a promulgação da Base Nacional Comum Curricular e do novo modelo de Ensino Médio, os currículos de estados e municípios brasileiros, de escolas públicas e privadas, vêm sendo reformulados para o atendimento de tais normativas. Dentre as principais mudanças para a última etapa da escolarização está a criação de dois blocos articulados, Formação Geral Básica e Itinerários Formativos, cuja promessa é flexibilizar o currículo para torná-lo mais atraente e coadunado aos interesses e projetos de vida dos estudantes, bem como sintonizado aos desafios da sociedade contemporânea. Com o intuito de contribuir com os estudos sobre os significados e possíveis efeitos dessa reforma, neste trabalho se estabeleceu como objetivo: Examinar a proposta do currículo das Ciências da Natureza no Currículo Referência de Minas Gerais para o Ensino Médio, produzido no contexto da Base Nacional Comum Curricular e do Novo Ensino Médio (2017), a partir do conceito de interdisciplinaridade. Para o alcance desse objetivo geral, três objetivos específicos foram traçados: (i) Caracterizar os documentos oficiais que explicitam a atual proposta curricular de Minas Gerais para a etapa do Ensino Médio em relação à área de conhecimento das Ciências da Natureza; (ii) Evidenciar as concepções de interdisciplinaridade presentes nos documentos analisados que balizam a organização curricular do estado mineiro em relação às determinações dadas pela Base Nacional Comum Curricular e pelo Novo Ensino Médio; (iii) Discutir sobre as possíveis implicações do atual arranjo curricular baseado no princípio da interdisciplinaridade para a redefinição da identidade e das finalidades da educação em Ciências no Ensino Médio. Metodologicamente, desenvolveu-se uma pesquisa documental sobre os documentos curriculares orientadores da implementação do currículo do Ensino Médio em 2024, os quais foram submetidos à Análise Textual Discursiva. Como principais resultados, observou-se que a implementação do Novo Ensino Médio em Minas Gerais produziu uma variedade de matrizes curriculares para essa etapa, demandando a contínua atualização das Resoluções e Planos de Curso a fim de garantir a cada ano uma oferta de percursos formativos diferentes. A referência ao termo “interdisciplinaridade” é frequentemente associada ao princípio da flexibilização curricular e ao desenvolvimento de competências e habilidades como finalidade última da escolarização, opondo-se à organização curricular baseadas em disciplinas por essa ser compreendida como um currículo rígido e inadequado às exigências de um mundo do trabalho complexo e imprevisível. A análise empenhada neste estudo fortalece a crítica ao esvaziamento curricular que essa reforma tem provocado, e considera que a noção polissêmica de interdisciplinaridade no discurso curricular contribui para legitimar o argumento de que a apropriação dos conhecimentos disciplinares, historicamente associados à formação científica e cultural dos estudantes, devem ser secundarizados frente à preparação de sujeitos flexíveis, adaptáveis, funcional e emocionalmente ajustados às exigências do mundo produtivo. Nesse contexto, a diluição e a redução de carga horária da área das Ciências da Natureza ao longo do Ensino Médio, sobretudo aos que não a “escolhem” como parte de seu percurso escolar, além de revelar o caráter restritivo desse projeto formativo, autentica o valor exclusivamente pragmático que ainda se atribui ao conhecimento cientifico e tecnológico no currículo escolar.