Lógica e Empirismo: Investigação sobre a linguagem em Étienne Bonnot de Condillac
Empirismo; conhecimento; linguagem
O objetivo desta dissertação é analisar a concepção de linguagem em Étienne Bonnot de Condillac e a confluência entre os pressupostos empiristas do autor e suas considerações sobre a linguagem. Pretende-se, assim, investigar a possibilidade de articulação entre duas concepções que, à primeira vista, parecem mutuamente excludentes no interior do sistema filosófico de Condillac: por um lado, a ideia de uma linguagem dada, que remete a um princípio inato; por outro, a radicalização de um empirismo herdado de Locke, no qual toda a gênese do conhecimento está enraizada na experiência sensível. A pergunta que orienta esta investigação é se a concepção de linguagem em Condillac é compatível com os fundamentos do empirismo condillacquiano. Ou, dito de outro modo, a linguagem em Condillac é, de fato, fundamentada no empirismo que ele próprio constroi? Para responder a essa questão, será necessário compreender em que sentido o empirismo de Condillac retoma e, ao mesmo tempo, rompe com o legado lockeano. Herdando de Locke a ideia de que o conhecimento provém da experiência — negando, portanto, o inatismo —, Condillac radicaliza esse princípio ao afirmar que até mesmo nossas faculdades intelectuais derivam da sensação. É nesse sentido que ele opera uma transposição do empirismo para a esfera da lógica e da linguagem, estabelecendo uma conexão entre o início do processo de conhecimento e os processos lógicos, articulados a partir da experiência sensível. É nesse contexto que surge a distinção entre linguagem de ação e linguagem articulada. A primeira, segundo Condillac, nos é dada pela própria natureza, enquanto a segunda, a linguagem articulada, é, ao contrário, um artifício elaborado, fruto da reflexão, do hábito e da convenção social. Nesse ponto, a possibilidade de uma linguagem dada, como a linguagem de ação, parece colidir com os pressupostos empiristas radicais do autor. No entanto, pretendemos argumentar que essa linguagem de ação não viola o empirismo condillacquiano, mas antes o aprofunda, ao funcionar como um elo pré-articulado entre sensação e linguagem. Ou seja, ela constitui uma forma primitiva de expressão da experiência sensível, anterior à palavra, mas ainda assim originada na experiência e não em ideias inatas. Essa hipótese nos permitirá investigar em que medida a linguagem cria ideias em Condillac. A tese que orienta esta dissertação, portanto, é que a linguagem de ação, longe de constituir um obstáculo ao empirismo, pode ser compreendida como uma mediação necessária entre sensação e linguagem articulada. Ao considerar essa possibilidade, pretendemos superar a aparente contradição entre inatismo e empirismo no pensamento de Condillac, oferecendo uma interpretação que mobiliza os princípios fundamentais de sua filosofia: a experiência como origem de todas as faculdades humanas, inclusive da linguagem.