Utilização de fragmentos de diferentes madeiras para maturação de cachaças
Cachaça, fragmentos, maturação, madeiras brasileiras, análises físico-química e cromatográficas.
A cachaça é um destilado brasileiro de grande importância cultural e econômica, cuja qualidade é essencial para sua competitividade. Em 2024, a produção nacional foi de aproximadamente 292,5 milhões de litros, com 6,66 milhões destinados à exportação. O envelhecimento em barris de madeira agrega valor ao produto, conferindo complexidade sensorial e maior aceitação. Uma alternativa ao envelhecimento tradicional é o uso de fragmentos de madeira, um método mais rápido e sustentável. Entretanto, ainda existem poucas evidências de que essa técnica reproduza os mesmos efeitos observados na maturação convencional, especialmente devido à limitada disponibilidade de oxigênio e à ausência de troca gasosa significativa no sistema. A interação entre madeira e cachaça depende da relação superfície/volume, fator que influencia diretamente a extração de compostos e a evaporação de líquidos. Nesse contexto, este trabalho avaliou, por meio de análises físico-químicas, cromatografia líquida e cromatografia gasosa, a transferência de compostos provenientes de fragmentos de diferentes madeiras para a cachaça, comparando os resultados obtidos com dados de envelhecimento descritos na literatura. Adicionalmente, foram realizadas análises anatômicas e determinações de extrativos totais nas madeiras antes e após o contato com a bebida. Os resultados demonstraram que a utilização de fragmentos promove elevada extração de compostos fenólicos em períodos reduzidos, alcançando concentrações comparáveis às observadas em cachaças envelhecidas convencionalmente. Entretanto, os congêneres e contaminantes da bebida apresentaram poucas alterações, indicando que o processo se aproxima mais de uma extração intensiva de compostos da madeira do que de um envelhecimento tradicional propriamente dito. As análises por HPLC confirmaram a presença de compostos fenólicos característicos da madeira, enquanto os resultados obtidos pelo método de Folin-Ciocalteu evidenciaram limitações na utilização exclusiva de fenólicos totais como parâmetro para determinação do envelhecimento da bebida. Além disso, as diferenças observadas entre os perfis fenólicos das madeiras avaliadas demonstraram o potencial tecnológico da utilização de diferentes espécies para o desenvolvimento de bebidas com maior complexidade química e sensorial.