Estudo das propriedades físicas e mecânicas de biocompósito de adobe com inserção de micélio para aplicações sustentáveis
Adobe, Biocompósitos, Micélio, Resíduo Orgânico, Construção Sustentável.
A crescente necessidade de reduzir os impactos ambientais da construção civil tem impulsionado o desenvolvimento de materiais sustentáveis alinhados aos princípios da economia circular e às metas da Agenda 2030 da ONU, especialmente as ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura), ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis). Nesse contexto, os sistemas construtivos em terra crua reaparecem como alternativa promissora, por utilizarem recursos locais, demandarem baixo consumo energético e possibilitarem reciclagem ao fim da vida útil. Entretanto, a limitada resistência mecânica e a elevada susceptibilidade à umidade ainda constituem barreiras importantes à ampliação de seu uso. Diante desse problema, a pesquisa investigou a viabilidade técnica da incorporação de microrganismos na forma de micélio em compósitos de adobe, configurando uma proposta inovadora de bioconsolidação do material. A justificativa reside na busca por biotecnologias capazes de melhorar o desempenho mecânico e hídrico da terra crua sem comprometer seus atributos ambientais, contribuindo para a transição para materiais regenerativos. Inicialmente, caracterizou-se o solo quanto à granulometria, plasticidade e mineralogia, obtendo-se composição média de 62% de areia, 13% de silte e 25% de argila. Os limites de liquidez (29,45%), plasticidade (9,2%) e contração (17,32%) classificaram o solo como de baixa plasticidade, adequado à moldagem de adobes. A mineralogia revelou predominância de caulinita (71,4%), acompanhada de gipsita, quartzo, goethita e hematita. Na fase experimental, produziram-se compósitos submetidos a quatro tratamentos, cada um com cinco repetições: TC (controle), TCB (caldo de batata), TM2 (2% de micélio) e TM5 (5% de micélio). Em todos os tratamentos modificados adicionou-se 2% de cal hidratada CH-I. Os corpos de prova mantiveram dimensões médias próximas de 76,11 mm, com retração linear variando entre 4,21% (TM2) e 7,76% (TM5). A resistência à compressão apresentou valores médios de 0,97 MPa (TC), 0,29 MPa (TCB), 0,43 MPa (TM2) e 1,23 MPa para o TM5, este último superando em 27% o valor do tratamento controle. Os resultados de desempenho hídrico também foram mais favoráveis ao TM5, cuja absorção por capilaridade (180 min) foi de 4,77% e por imersão (24 h) de 9,02%, além da menor perda de massa (3,80%). De forma geral, constatou-se que o solo é tecnicamente adequado para a produção de adobes e que os tratamentos não comprometeram a estabilidade dimensional. Os resultados evidenciam o potencial do uso de micélio como agente modificador, especialmente no compósito com 5% de incorporação, que apresentou o maior valor de resistência à compressão (1,23 MPa) e melhor desempenho global, sendo indicado, portanto, para uso não estrutural. Assim, a pesquisa contribui para o avanço do conhecimento sobre biocompósitos à base de terra, reforçando a possibilidade de desenvolver materiais construtivos mais sustentáveis, alinhados à economia circular e aos objetivos ambientais contemporâneos