DIÁRIOS DE MESTRANDA NA FORMAÇÃO DA PESQUISADORA
Emoções; Formação Identitária; Diários Reflexivos; Avaliatividade.
As emoções humanas são impregnadas de significados, importantes para a interação cultural e social, uma vez que é por meio delas, assim como do pensamento, da linguagem, da memória e da imaginação (Ramos, Ferreira e Leal, 2023, p. 160), que os indivíduos não apenas compreendem o mundo, mas também ressignificam suas relações com ele. Em consonância com as ideias de Vigotsky (2004), que rejeita uma visão estritamente biológica das emoções, é possível entender que elas são flexíveis ao contexto histórico e social em que o indivíduo está inserido, fazendo com que possam ser experienciadas de maneira distinta, por sujeitos distintos e em contextos variados. O espaço da pós-graduação tem possibilidades para identificar como as emoções compartilhadas pela comunidade acadêmica impactam de maneira particular cada um de seus integrantes (Mota, 2023; Sturmer, 2024; Wang, Yu e Jiang, 2024). Nesse viés, esta pesquisa, de caráter reflexivo, parte da minha trajetória acadêmica como pesquisadora em construção no Programa de Pós-Graduação em Letras, dando continuidade as minhas pesquisas sobre as interações emocionais e a construção identitária, iniciada na graduação. O objetivo principal desta pesquisa é discutir quais aspectos das minhas interações contribuem para a construção da minha identidade como pesquisadora, discutindo ainda como os fatores emocionais como mestranda, identificadas em meus diários, impactaram na minha construção como pesquisadora, buscando responder às seguintes perguntas de pesquisa: a) Quais emoções emergem nos registros dos diários de formação?; b) Quais desafios emocionais e identitários foram experienciados ao longo da trajetória como pesquisadora em formação?; e c) Como a escrita e a releitura dos diários contribuíram para a elaboração dessas emoções e para a construção da minha identidade como pesquisadora? Para sustentar a investigação, este estudo baseou-se nos aportes de Vigotsky (2004, 2017), Bock, Furtado e Teixeira (2008), Abreu (2017), Ramos, Ferreira e Leal (2023), Ferreira, Finardi e Waterman (2023) e Barcelos (2024), nos estudos sobre emoções. Já Zabalza (2004), Dornelles e Irala (2013), Andrade e Almeida (2018), Romero (2020) e Barcelos (2020) auxiliam nas pesquisas sobre construção identitária e a contribuição das narrativas nesse processo. Nessa pesquisa, adoto uma abordagem qualitativa (Paiva, 2019), em que são analisados recortes dos 67 diários escritos por mim, durante o meu primeiro ano no mestrado, os quais descrevem momentos carregados de emoções, como o período de greve, as aulas, as apresentações em eventos, orientações acadêmicas, entre outros. É complementada com uma análise linguística apoiada na Linguística Sistêmico-Funcional (Fuzer e Cabral, 2014), a partir do sistema da Avaliatividade, desenvolvido por Martin e White (2005). Os resultados iniciais indicam a recorrência de emoções como ansiedade, medo, insegurança, satisfação e superação, expressas por meio de recursos linguísticos que revelam o meu posicionamento afetivo como mestranda diante dos desafios acadêmicos. Observou-se também que a escrita dos diários não apenas permitiu o registro das emoções, mas também atuou como um instrumento de autorreflexão e ressignificação das experiências vividas. O processo de letramento emocional, compreendido como a capacidade de identificar, compreender e lidar com emoções (Barcelos, 2024), foi positivo para a minha construção como pesquisadora e mestre em Letras, uma vez que as emoções influenciaram diretamente as minhas ações e o meu engajamento durante o curso. Além disso, a pesquisa se revela promissora no campo da Linguística Aplicada, uma vez que analisa as emoções nesse espaço de interação acadêmica, seu impacto na construção identitária e os principais gatilhos envolvidos, promovendo um espaço reflexivo na universidade e ancora as interpretações em evidências linguísticas por meio do Sistema de Avaliatividade.