Qualificação realizada por meio de avaliação escrita.
A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA IDENTIDADE DA MULHER COM VISIBILIDADE PÚBLICA QUE OPTA PELA NÃO MATERNIDADE
análise do discurso; mulher; construção da identidade; não maternidade.
Os discursos sobre as mulheres moldam o que é socialmente reconhecido como “ser mulher” e, com isso, a maneira como elas são vistas e representadas na sociedade pode afetar diretamente a construção de sua identidade. Um imaginário cristalizado, em muitas sociedades, associa a maternidade à felicidade e completude, sustentando a ideia de que, sem filhos, a mulher seria infeliz e amargurada. Quando uma mulher decide não ter filhos, ela rompe com esses discursos normativos que sustentam a feminilidade, o que leva ao questionamento social de sua escolha. Motivado pela experiência pessoal da autora, uma mulher casada e sem filhos que enfrenta cobranças sociais sobre a maternidade, o presente estudo busca compreender como mulheres com visibilidade pública que escolheram não ser mães se constroem e são construídas discursivamente. Como fundamentação teórica, elegeu-se a Análise de Discurso (AD) produzida por Pêcheux (2014; 2021), Orlandi (2015; 2023a; 2023b), Foucault (1996; 2008) e Courtine (2014; 2016); a noção de ideologia de Althusser (1970; 1985); as reflexões sobre a mulher e a subordinação feminina propostas por Beauvoir (2019a; 2019b), Saffioti (2015), Pateman (2024) e Hooks (2025); questões de gênero, abordadas por Butler (2025); a maneira como as mulheres viviam a maternidade, descrita por Badinter (1985) e a discussão de como a maternidade pode ser naturalizada como um sentido único, proposta por Donath (2024). A AD busca compreender como os discursos são produzidos, que efeitos de sentido promovem, considerando as condições históricas, sociais e ideológicas de diferentes acontecimentos. A escolha dessa temática configura um estudo de grande importância para a sociedade em geral porque trata da condição social de muitas mulheres na atualidade. No entanto, observa-se que há poucos trabalhos voltados para a construção social da maternidade na área da AD, o que também justifica a escolha da temática abordada. O estudo tem como corpus depoimentos de mulheres com grande visibilidade nas mídias que optaram pela não maternidade. Foram escolhidas publicações disponíveis em plataformas de notícias on-line, escritas entre 2010 e 2025, para refletir sobre como os discursos sociais moldam e limitam a construção da identidade feminina, considerando as relações de poder e o silenciamento das vozes que desafiam as normas. As análises preliminares apontam que as formações imaginárias sobre a mulher ainda podem trazer a maternidade como pilar da constituição feminina, dependendo da formação discursiva do sujeito, e que mulheres com certo nível de poder e status social, apesar de terem que justificar suas escolhas frequentemente, demonstram sofrer menos estigmatização.