REPRESENTAÇÕES LITERÁRIAS DA VIOLÊNCIA INSTITUCIONALIZADA: UM DIÁLOGO ENTRE A VIDA VERDADEIRA DE DOMINGOS XAVIER E EM CÂMARA LENTA
violência institucionalizada; tortura; Luandino Vieira; Renato Tapajós.
A literatura frequentemente atua como meio de registrar experiências vividas em diferentes contextos históricos, inclusive aqueles em que a sociedade convive com a repressão. Nessas situações, a literatura ganha dupla importância: a de registrar a história pela ótica do oprimido, preservando a narrativa de eventos que aqueles que detêm o poder têm o interesse de ocultar, e a de servir como meio de resistência. Assim, a presente pesquisa analisa comparativamente as representações da violência institucionalizada nas obras literárias A vida verdadeira de Domingos Xavier (2024), publicada em 1961 pelo angolano José Luandino Vieira, e Em câmara lenta, publicada em 1977 pelo brasileiro Renato Tapajós, inseridas, respectivamente, nos contextos do colonialismo português em Angola (1575-1975) e da ditadura militar brasileira (1964-1985). No texto angolano, a narrativa traz uma cena de tortura do protagonista em uma prisão por conduta anticolonial, que será o foco da análise da representação da violência. Por sua vez, no texto brasileiro, o foco está na cena de perseguição, prisão e tortura durante a ditadura militar, que leva à morte de uma militante, referida no livro apenas como “ela”, após ser parada por policiais e reagir. Desse modo, fundamentado nos pressupostos da Literatura Comparada, o estudo busca compreender de que maneira a violência, especialmente a física, é transformada em narrativa literária e quais os diálogos possíveis entre duas produções oriundas de realidades históricas distintas, mas igualmente marcadas por regimes autoritários. A investigação parte da hipótese de que ambas as obras utilizam a literatura como espaço de denúncia, memória e resistência, transfigurando o corpo torturado em forma de resistência. Como objetivo geral, analisa-se a representação da repressão e da violência institucionalizada, com ênfase em sua dimensão corporal. A pesquisa possui abordagem qualitativa e caráter bibliográfico, fundamentando-se em referenciais sobre violência, poder, corpo e estado de exceção, dialogando com autores como Michel Foucault (2014), Achille Mbembe (2018, 2022), Frantz Fanon (2022), Hannah Arendt (1999, 2023), Christine Greiner (2010) e Giorgio Agamben (2004). Espera-se contribuir para os estudos comparatistas ao promover um diálogo entre as literaturas brasileira e angolana, valorizando perspectivas não eurocêntricas e ampliando as reflexões acerca das relações entre literatura, violência e resistência em contextos de repressão política.