QUEM CONTA SE (RE)CONTA: Narrativas de Oratura na tessitura da subjetividade, da memória, da experiência e do laço social
oratura e narrativa de oratura; experiência e memória; literatura e psicanálise
Nessa pesquisa abordou-se a oratura como prática estética, performática, relacional e epistemológica de transmissão de memórias, experiências e saberes, cuja discussão também evidencia sua dimensão política. Nessa perspectiva, mostrou-se profícuo o diálogo entre a literatura, a oratura e a psicanálise, tendo em vista o processo de humanização viabilizado pela literatura, conforme apontado pelo sociólogo e crítico literário Antonio Candido, bem como sua estreita relação com a escuta psicanalítica e com a voz na oratura. A partir dessas considerações e dos estudos de Pio Zirimu acerca da oratura, propôs-se o conceito de Narrativas de Oratura para designar histórias transmitidas em contextos familiares e comunitários por sujeitos do Sul de Minas Gerais, nas quais o que se conta permanece indissociável de como se conta, articulando narrativa e performance. O problema que orientou a pesquisa foi: de que modo a experiência performativa das narrativas de oratura participa da rememoração e da narração de si, favorecendo processos de constituição e transformação da subjetividade? Elegeram-se como corpus de análise seis entrevistas abertas, examinadas à luz dos conceitos de narrativas de oratura, em diálogo com os conceitos de narrador e experiência, em Walter Benjamin; voz e performance, em Paul Zumthor; lúdico, na perspectiva de Norida Castro; e perlaboração, em Freud e seus desdobramentos na obra de Jeanne Marie Gagnebin, além de outros autores que contribuíram para o diálogo proposto. O objetivo principal foi investigar como as narrativas de oratura participam dos processos de constituição e transformação da subjetividade de sujeitos do Sul de Minas Gerais. Metodologicamente, a pesquisa, de caráter qualitativo e exploratório, procedeu à gravação das entrevistas, que, após transcrição integral, foram analisadas com base nos conceitos mobilizados. A interpretação das narrativas evidenciou aspectos que dialogam com a crítica de Walter Benjamin ao empobrecimento da experiência, e com as discussões contemporâneas acerca da fragilização do laço social. Verificou-se que, apesar do contexto neoliberal contemporâneo, as narrativas de oratura constituem espaços nos quais memórias, crenças, medos, experiências familiares, religiosas e de trabalho permanecem em circulação e são continuamente reinterpretadas a cada novo reconto. Nesse sentido, a repetição não visa à reprodução do passado, mas à produção de novos sentidos, favorecendo a elaboração da experiência, bem como a preservação e a atualização das memórias individuais e coletivas. Assim, ao apresentar o conceito de narrativas de oratura, esta pesquisa ampliou o diálogo entre literatura, psicanálise e estudos da oratura, oferecendo outra perspectiva para compreender essas narrativas como práticas que participam da tessitura da subjetividade, da memória, da experiência e do laço social. O próprio percurso investigativo demonstrou que a experiência narrada permanece aberta ao encontro com novos ouvintes, novas interpretações e recontos, incluindo o pesquisador, cuja escuta também passa a integrar essa cadeia de transmissão e elaboração da experiência.