RECONHECIMENTO E INVISIBILIDADE NA PRODUÇÃO CIENTÍFICA: CONSIDERAÇÕES SOBRE DIVERSIDADE E A INFLUÊNCIA DA NACIONALIDADE NO ESTUDO DE CASO SOBRE MÁRIO SCHENBERG E O PROCESSO URCA
Nacionalidade; Natureza da Ciência; Educação em Astronomia; História e Filosofia da Ciência; Mário Schenberg.
Esta dissertação examina o episódio histórico do desenvolvimento do Processo URCA, no contexto da colaboração entre George Gamow e Mário Schenberg, situando-o no processo mais amplo de consolidação dos modelos teóricos sobre a evolução estelar e o colapso gravitacional na primeira metade do século XX. O estudo investiga como esse episódio se insere nas transformações conceituais ocorridas entre as décadas 1900 à meados de 1940, período marcado pela incorporação da física nuclear, da mecânica estatística relativística e de novos mecanismos de transporte de energia à astrofísica teórica. Nesse sentido, nossa pesquisa dedica atenção especial à contribuição pontual de Mário Schenberg, físico brasileiro cuja participação na formulação do mecanismo de perda de energia por neutrinos desempenhou papel relevante na tentativa de explicar o colapso de estrelas massivas e os fenômenos associados às supernovas. Ao reconstruir historicamente essa colaboração, analisa-se como a interação entre Gamow (cientista russo-norte-americano inserido em centros hegemônicos da ciência internacional) e Schenberg (projetado a partir de um contexto periférico), pode colaborar para uma melhor compreensão sobre como, e de que jeito, nacionalidade, trajetórias formativas e inserção geopolítica moldaram tanto as contribuições individuais quanto a dinâmica coletiva de produção do conhecimento científico. Deste modo, nosso objetivo geral consiste em identificar e analisar aspectos da Natureza da Ciência (NdC) que emergem desse episódio histórico, com destaque para o pluralismo epistêmico, a circulação internacional de ideias e as hierarquias simbólicas presentes na comunidade científica. De forma mais específica, investiga-se como a participação de Schenberg no desenvolvimento do Processo URCA permite problematizar concepções que apresentam a ciência como neutra, exclusivamente meritocrática ou orientada apenas por critérios internos de racionalidade. Para isto, realiza-se uma análise histórico-epistemológica de fontes secundárias, incluindo artigos científicos e correspondências pessoais, com o intuito de evidenciar tanto os processos de construção teórica quanto os condicionantes sociais que atravessaram o episódio. De modo efetivo, a análise do Processo URCA revela que a produção do conhecimento científico envolveu a articulação entre diferentes estilos de pensamento, recursos heurísticos e contextos culturais, ao mesmo tempo em que expõe mecanismos de exclusão, estereótipos e hierarquias associados à origem geográfica e à nacionalidade dos cientistas envolvidos. Conclui-se, portanto, que esse episódio constitui um caso histórico relevante não apenas para a compreensão da evolução estelar, mas também para a valorização da contribuição de Mário Schenberg na história da astrofísica e para a compreensão da ciência como uma prática coletiva, criativa e transnacional, marcada por tensões entre universalidade epistemológica e desigualdades geopolíticas.