A CRISE DO CONHECIMENTO NAS CONFISSÕES DE AGOSTINHO
Agostinho, Confissões, Conhecimento, Memória, Razão.
A presente dissertação investiga a conceituação e o desdobramento da crise do conhecimento no itinerário intelectual e epistemológico de Agostinho de Hipona, tomando como baliza hermenêutica central a tessitura retrospectiva contida na obra Confissões. O escopo do trabalho consiste em analisar como o colapso do materialismo do maniqueísmo e a posterior tensão com o ceticismo da Nova Academia conduziram o autor a uma profunda reformulação da capacidade cognitiva humana, cuja superação e acesso à Verdade tornaram-se realizáveis mediante à harmonização entre a investigação racional e a autoridade da fé. Metodologicamente, a pesquisa delimita a crise sob uma perspectiva epistemológica e contextualizada na Antiguidade Tardia. No primeiro capítulo, onde analisa-se o livro V, demonstra-se como as inconsistências cosmológicas maniqueístas frente aos dados da astronomia arrastaram Agostinho em direção à dúvida sistemática acadêmica, operando como uma purificação negativa da mente que preparou o terreno para a reabilitação da crença por testemunho e a legitimação das Escrituras sob a mediação de Ambrósio de Milão. No segundo capítulo, cujo objeto de análise é o livro VII, verticaliza-se o impacto da leitura dos livros neoplatônicos, explicitando que, embora o neoplatonismo tenha fornecido o aparato metafísico necessário para desmaterializar a concepção de Deus e equacionar o mal sob o estatuto da privação do bem, a razão filosófica pagã revelou-se soteriologicamente insuficiente, demandando a introdução da doutrina da Graça divina medicinal para curar e unificar uma faculdade volitiva cindida pelo peso dos hábitos. O terceiro capítulo coroa a investigação ao perscrutar a estrutura dinâmica da memória no livro X, evidenciando que a transição narrativa resguarda o valor autobiográfico ao deslocar o objeto de exame das coisas sensíveis para as realidades suprassensíveis. Mapeia-se o palácio mnemônico como o espaço inteligível da autoconsciência e decifra-se o paradoxo do esquecimento como o gatilho teológico que quebra o isolamento solipsista, provando que a alma, estreita demais para conter a própria imensidão, depende da iluminação do Verbo como ratio cognoscendi. Consequentemente, os resultados desta pesquisa reiteram que a resolução da crise epistemológica agostiniana desloca a filosofia para a órbita de uma disciplina eminentemente prática da bem-aventurança, consolidando a tese de que a autêntica constituição do conhecimento se confunde com o repouso afetivo junto ao Sumo Bem e a conquista da vida feliz (beata vita).