POTENCIAL TERAPÊUTICO E SEGURANÇA DOS DERIVADOS DE CANNABIS SATIVA EM DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS: UMA REVISÃO DE ESCOPO
canabinoides; neuroproteção; doenças neurodegenerativas; sistema
endocanabinoide; PRISMA.
Este estudo teve por objetivo mapear as evidências científicas disponíveis sobre o uso
terapêutico e o perfil de segurança dos derivados de Cannabis Sativa, especificamente o
canabidiol (CBD) e o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), em portadores de doenças
neurodegenerativas, como Alzheimer (DA), Parkinson (DP) e Esclerose Múltipla (EM).
Trata-se de uma revisão de escopo elaborada conforme as diretrizes PRISMA-ScR e o Manual
do Joanna Briggs Institute (JBI), bem como registrada na Open Science Framework (OSF). A
estrutura seguiu o mnemônico PCC (População, Conceito e Contexto) e a prospecção de
dados ocorreu em 7 bases PubMed, Cochrane Library, Web of Science, Scopus, Scielo,
LILACS e Google Scholar. De 23.593 registros iniciais, 22 estudos foram incluídos após
remoção de duplicatas, triagem por título/resumo e avaliação de texto completo. Dos 22
estudos, 13 focaram EM, 6 DP e 4 DA. Na EM, 84,6% (n=11) dos estudos demonstraram
benefício significativo na espasticidade subjetiva com Nabiximols (THC:CBD 1:1). Na DP,
não se observou melhora motora objetiva (UPDRS-III), mas 66,7% (n=4 reportaram)
benefício para ansiedade e sono com CBD isolado (75–300 mg/dia) ou Nabilona. Na DA,
75% (n= 3) dos estudos indicaram redução da agitação, especialmente com Nabilona
(1–2 mg/dia). O efeito comitiva foi corroborado por 81,8% das evidências, sugerindo
superioridade de formulações combinadas frente aos compostos isolados. Quanto ao perfil de
segurança, observou-se o predomínio de eventos adversos leves a moderados — como
tontura, sonolência e xerostomia — com uma incidência residual de eventos graves de apenas
0,3%, embora o risco de interações via citocromo P450 exija monitoramento. A eficácia
terapêutica dos canabinoides variou conforme a patologia e a sintomatologia específica: as
evidências são consistentes para a espasticidade na EM, demonstram benefícios claros nos
sintomas não motores da DP e apresentam um sinal promissor no manejo da agitação na DA.
Contudo, lacunas críticas incluem ausência de estudos doseresposta, seguimento limitado
(apenas 9,1% >3 meses) e falta de desfechos modificadores de doença. Embora as
formulações combinadas apresentem indícios de superioridade frente aos compostos isolados,
a validação definitiva do efeito comitiva ainda requer ensaios clínicos comparativos diretos
(head-to-head). Em suma, a segurança do paciente exige titulação cautelosa e monitoramento
periódico, particularmente no contexto da polifarmácia em idosos.