ENTRE O CORPO E O PSÍQUICO: O DESAMPARO COMO CONDIÇÃO DA CULTURA
A pesquisa tem por escopo investigar o conceito de desamparo (Hilflosigkeit) na obra de Sigmund Freud. O objetivo geral é sustentar que o desamparo constitui um conceito limítrofe entre o psíquico e o somático, cuja construção se expande paulatinamente na teoria freudiana: de um estado originário do recém-nascido à necessidade de relações sociais e, por conseguinte, da cultura. O percurso proposto está dividido em três eixos: (1) a emergência da noção de desamparo nas obras pré- psicanalíticas, especialmente no Projeto para uma psicologia científica, redigido em 1895; (2) a articulação do desamparo com a teoria da angústia, com os vínculos sociais e os investimentos libidinais, em especial em Inibição, sintoma e angústia (1926); e (3) a centralidade de tal conceito na teoria freudiana da cultura, nas obras O futuro de uma ilusão (1927) e O mal-estar na civilização (1930). A hipótese levantada é a de que o desamparo aparece na obra de Freud como uma noção crescente, nunca perdendo seu caráter limítrofe entre o psíquico e o somático, partindo de um âmbito individual, passando pelas relações sociais e dirigindo-se ao cultural dando nome à insuficiência da condição humana. Pretende-se sustentar que o desamparo, longe de ser apenas um termo descritivo, mantém-se como operador metapsicológico essencial, capaz de articular as dimensões individual, social e cultural na psicanálise freudiana.