COMPREENDENDO A ADERÊNCIA AO TRATAMENTO DA DIABETES TIPO 2 EM ANGOLA: VALORES PESSOAIS E ESTRUTURAS MOTIVACIONAIS NA PERSPECTIVA DE MÉDICOS E PACIENTES
Aderência ao tratamento; diabetes mellitus tipo 2; valores pessoais; cadeia meios-fim; laddering; estruturas motivacionais; Angola.
A aderência ao tratamento da diabetes mellitus tipo 2 (DM2) constitui um comportamento complexo, influenciado não apenas por aspectos clínicos e materiais, mas também por motivações, relações sociais e valores associados às consequências do tratamento. Esta dissertação teve como objetivo compreender as estruturas motivacionais relacionadas à aderência ao tratamento da DM2 em Angola, considerando as relações entre atributos, consequências e valores na perspectiva de pacientes e médicos. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, exploratória e interpretativa, fundamentada na Teoria da Cadeia Meios-Fim e na abordagem dos valores pessoais. A etapa empírica foi realizada em Luanda, com 19 médicos vinculados à área de endocrinologia e 20 pacientes com DM2 aderentes ao tratamento. Os dados foram obtidos por meio de entrevistas em profundidade conduzidas com a técnica laddering e analisados a partir da identificação e codificação dos elementos Atributo–Consequência–Valor (A-C-V), construção das ladders individuais, elaboração das matrizes de implicação e dos Mapas Hierárquicos de Valores (HVM). Na estrutura motivacional dos médicos, o cumprimento do tratamento apresentou a maior centralidade, evidenciando sua função articuladora entre diferentes motivações e finalidades associadas à aderência. Entre os pacientes, o prolongamento e a continuidade da vida constituíram o principal nó articulador, seguido pelo cumprimento e continuidade do tratamento. Apesar dessas diferenças de ênfase, as duas perspectivas apresentaram convergências relevantes, especialmente quanto à preservação da vida, à família e ao pertencimento relacional e à qualidade de vida como finalidades associadas à aderência. A família emergiu simultaneamente como fonte de apoio para a continuidade do tratamento e como finalidade valorizada pelos participantes. As diferenças foram observadas sobretudo na organização dos caminhos motivacionais. Na percepção dos médicos, destacaram-se consequências psicossociais relacionadas às complicações, à dependência, à autoestima, à autonomia e à confiança terapêutica. Entre os pacientes, ganharam maior saliência o prolongamento da vida, a fé/religiosidade, o acolhimento e a permanência junto à família. Os resultados evidenciam que a aderência à DM2 ultrapassa o simples cumprimento de recomendações terapêuticas, adquirindo significado pelas consequências e pelos valores aos quais o tratamento se conecta. O estudo contribui para a compreensão do comportamento de aderência no contexto angolano e oferece subsídios para práticas de cuidado e gestão dos serviços de saúde mais sensíveis às motivações e finalidades valorizadas pelos pacientes.