Incluir, traduzir, redistribuir: interseccionalidade e a disputa pelo poder nas organizações de D&EI racial
D&EI racial; interseccionalidade; branquitude; tradução organizacional; redistribuição.
EEsta tese analisa como a perspectiva interseccional é interpretada, traduzida e operacionalizada nos processos organizacionais de Diversidade, Equidade e Inclusão (D&EI) racial no Brasil e como sua circulação reorganiza relações de poder. O referencial articula interseccionalidade, relações raciais, branquitude, organizações racializadas e estudos críticos da diversidade. A pesquisa qualitativa reúne dois conjuntos empíricos independentes e complementares: documentos públicos produzidos por dez organizações atuantes na agenda racial de D&EI e 17 entrevistas semiestruturadas com profissionais que trabalham ou trabalharam nesse campo. Os conjuntos foram analisados separadamente e integrados por cinco dimensões comuns: construção racial do problema; categorias, relações e diferenças intragrupais; tradução e materialização organizacional; poder, fronteiras e redistribuição; e institucionalização, localização e permanência. Os resultados mostram que categorias agregadas podem ocultar diferenças intragrupais e generalizar como avanço coletivo o movimento concentrado em determinados subgrupos. A perspectiva interseccional torna visíveis essas diferenças e racializa também os critérios, posições e sujeitos apresentados como referência organizacional. Os relatos evidenciam um trabalho contínuo de tradução: profissionais selecionam linguagens, dados, argumentos, interlocutores e portas de entrada para converter uma leitura relacional das desigualdades em prioridades, métricas, responsabilidades e processos. A tese conceitua esse movimento como tradução da perspectiva interseccional enquanto trabalho organizacional. Os achados também mostram pessoas negras construindo redes, ocupando posições e disputando critérios de competência, pertencimento e autoridade, dinâmica denominada mobilidade disputada das fronteiras organizacionais. A análise distingue representação, ascensão nominal, ascensão substantiva e redistribuição, demonstrando que a profundidade da inclusão se expressa nas mudanças de remuneração, recursos, reconhecimento, autonomia e poder decisório. Como proposição analítica central, a reacomodação organizacional da branquitude explica como vantagens historicamente associadas à posição branca podem ser reposicionadas entre critérios, classificações e redes quando formas anteriores de exclusão são contestadas. Em escala transnacional, o backlash transnacional assimétrico descreve a circulação desigual de pressões de retração da D&EI e sua tradução no contexto brasileiro. Conclui-se que a perspectiva interseccional produz contribuição crítica quando orienta o diagnóstico das relações de poder, alcança processos organizacionais e oferece critérios para avaliar a redistribuição de recursos, reconhecimento, autoridade e capacidade de decisão.